Deus é bom

por Renilson Tomaz*

À primeira vista, esta é uma frase trivial e piedosa no contexto cristão-católico.
Mas tais palavras tomaram outro tom quando Dom Luciano as repetida a todos que o visitavam no hospital, após um acidente de carro que quase lhe tirou a vida. Imobilizado e sem poder falar por longos meses, dada a gravidade dos ferimentos, ele escrevia com dificuldade esta frase para todos os que iam confortá-lo. As pessoas saíam impressionadas com este homem que louvava o Senhor mesmo vivendo momentos tão difíceis. Nesta época uma senhora o interrogava o porquê de Deus tê-lo deixado sofrer algo tão terrível, logo um bispo que fazia tanta caridade. Dom Luciano escreveu esta frase bem devagar em letra trêmula e contou, anos depois num retiro para jesuítas, que pensou longamente sobre a pergunta daquela senhora e afirmou que se Deus mesmo se encarnou e veio até nós na pessoa de Jesus, sem privilégio algum e sofreu tudo aquilo…nós não teríamos que ser diferentes dele. O cristão não deveria almejar privilégio mas aceitar os fatos da vida como uma doença, um acidente.

Ver Deus em todas as coisas e não deixar de enxergar a bondade de um Pai amoroso mesmo no sofrimento.
Isso lembra uma frase também repetida à exaustão por outro santo jesuíta, já oficialmente chancelado pelo Vaticano: Alberto Hurtado. Ao ter contratempos nos trabalhos apostólicos no Chile e mesmo ao enfrentar o câncer ele sempre dizia “Contento, Señor,…contento”. Estava sempre contente, grato por tanto amor recebido e tudo o que queria era retribuir.

Dom Luciano dizia “Deus é bom” em seu leito no hospital pois nem a dor nem o sofrimento o impediam de sentir-se impregnado pelo amor de Deus.

Peçamos a ele, que agora está diante do Pai face a face, que nos ajude ter nos olhos as lentes da Contemplação para alcançar Amor e conseguir dizer que “Deus é Bom” em todas os momentos de nossa vida.

(*) Renilson Tomaz é membro da Pequena Comunidade Dom Luciano. Orienta Exercícios Espirituais na Vida Cotidiana.

Published in: on 09/04/2010 at 15:28  Comments (1)  
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Que faz Deus numa Cruz?

Por José Antonio Pagola*

Segundo o relato evangélico, os que passavam ante Jesus crucificado sobre a colina do Gólgota escarneciam Dele e, rindo-se da Sua impotência, diziam-Lhe: «Se és o Filho de Deus, desce da cruz». Jesus não responde à provocação. A Sua resposta é um silêncio carregado de mistério. Precisamente porque é Filho de Deus permanecerá na cruz até à Sua morte.

As perguntas são inevitáveis: Como é possível acreditar num Deus crucificado pelos homens? Damo-nos conta do que estamos a dizer? Que faz Deus numa cruz? Como pode subsistir uma religião fundada numa concepção tão absurda de Deus?

Um “Deus crucificado” constitui uma revolução e um escândalo que nos obriga a questionar todas as ideias que nós, humanos, fazemos a respeito de um Deus a quem supostamente conhecemos. O Crucificado não tem o rosto nem os traços que as religiões atribuem ao Ser Supremo.

O “Deus crucificado” não é um ser omnipotente e majestoso, imutável e feliz, alheio ao sofrimento dos humanos, mas um Deus impotente e humilhado que sofre como nós a dor, a angustia e até a mesma morte. Com a Cruz, ou termina a nossa fé em Deus, ou nos abrimos a uma compreensão nova e surpreendente de um Deus que, encarnado no nosso sofrimento, nos ama de forma incrível.

Ante o Crucificado começamos a intuir que Deus, no Seu último mistério, é alguém que sofre como nós. A nossa miséria afeta-O. O nosso sofrimento salpica-O. Não existe um Deus cuja vida transcorre, por assim dizer, à margem das nossas penas, lágrimas e desgraças. Ele está em todos os Calvários do nosso mundo.

Este “Deus crucificado” não permite uma fé frívola e egoísta num Deus omnipotente ao serviço dos nossos caprichos e pretensões. Este Deus coloca-nos a olhar para o sofrimento, o abandono e o desamparo de tantas vítimas da injustiça e das desgraças. Com este Deus encontramo-nos, quando nos aproximamos do sofrimento de qualquer crucificado.

Os cristãos continuam a tomar todo o gênero de desvios para não dar com o “Deus crucificado”. Temos aprendido, inclusive, a levantar o nosso olhar para a Cruz do Senhor, desviando-o dos crucificados que estão ante os nossos olhos. No entanto, a forma mais autêntica de celebrar a Paixão do Senhor é reavivar a nossa compaixão. Sem isto, dilui-se a nossa fé no “Deus crucificado” e abre-se a porta a todo o tipo de manipulações. Que o nosso beijo ao Crucificado nos coloque sempre a olhar para quem, próximo ou afastado de nós, vive a sofrer.

(*) José Antonio Pagola é um sacerdote católico basco, biblista, autor de “Jesus: uma Abordagem Historica”.

Published in: on 30/03/2010 at 13:46  Comments (1)  
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Mais um parto desumanizado

por Ricardo Perez Jannuzzi*

Fala-se muito em humanizar os partos no sistema público de saúde no Brasil, e em muitos países. Critica-se a assistência médica obstétrica pela precariedade dos pré-natais e da infraestrutura hospitalar, pela frieza de muitos profissionais, pelo impedimento da participação paterna durante o trabalho de parto (garantida por lei), pelo excesso de intervenções desnecessárias, pelas episiotomias rotineiras que muitas vezes acarretam mais morbidades do que benefícios, pelo excesso de cesarianas mal indicadas, entre outros quesitos.

A área da saúde cada vez mais é disputada por diversos seguimentos profissionais, seja no sistema público ou privado. No Brasil, a Enfermagem desponta como defensora dos partos normais. E as “parteiras modernas”, doulas, partem para a luta em defesa das mulheres.

Já na obstetrícia privada do Brasil, parto humanizado é praticamente sinônimo de cesariana agendada. A paciente, ou melhor, a cliente escolhe o seu obstetra, e a via de parto praticamente não é discutida. O pré-natal deve se assemelhar ao do sistema público, com a diferença de que não haverá falta de reagentes para realizar exames ou defeitos nos aparelhos de ecografias gestacionais. Pelo contrário, quanto mais exames, maior o lucro. Será que é isso que a medicina pública deve almejar? Isso garante um parto humanizado?

Sabe-se que fora do Brasil as coisas são bem diferentes. Em muitos países desenvolvidos o parto normal (vaginal) é a rotina, e não é encarado como um absurdo. Tanto que as taxas de cesarianas são baixíssimas.

Como estamos chegando ao final do ano e o clima de natal toma conta de todos, meditei alguns acontecimentos dos últimos meses relativos aos estágios em pediatria, ginecologia e obstetrícia e resolvi compartilhar com vocês algumas inquietações.

O natal, que na etimologia da palavra significa “nascer”, é sempre um momento especial. Um natal nunca se repete, por mais que estejamos quase todos os anos na presença das mesmas pessoas. Mas sempre falta um daqui, agrega-se um de cá e assim celebramos o natal. Ainda assim, podemos considerar que as pessoas de sempre não são as mesmas do ano anterior, pois a cada ano nos transformamos. Os anos certamente transfiguram as pessoas. Este ano não podia ser diferente.

Fomos à missa em família, no colosso Santuário de São Francisco de Assis. Mesmo assim, estava lotado e tivemos de ficar em pé. A missa foi solene, como sempre. Havia incenso, presépio requintado (é possível chamar isso de presépio? Afinal, etimologicamente presépio significa estábulo, ou manjedoura de animais), iluminação impecável, músicas celestiais, comunidade cheirosa e bem vestida. Pura alegria!

Missa vai, missa vem, nenhuma novidade, fala-se do nascimento de um menino especial, envolto em simplicidade, descreve-se a cena de forma romantizada, tudo muito bucólico. Quando cantado o glória aspira-se o triunfo, muitos se sentem no céu, o canto dos anjos se mistura ao canto ensurdecedor do ministério de música. Homilia tradicional, de certo modo superficial, critica-se o consumismo, eleva-se o nascimento de um menino escolhido, poderoso, promessa de um grande futuro para todos.

Até que se estabele uma conexão com o trancendente. Em pé, no meio do santuário, sinto uma moção interior. A proclamação das profecias e a narração do evangelho não batem com aquele tipo de celebração. A Espiritualidade Inaciana, por meio da contemplação evangélica, me remete à uma realidade mais palpável. Por que há tanta resistência ao óbvio? Por que amenizar as palavras e a realidade? Por que tanta dificuldade para contemplar e vivenciar o verdadeiro nascimento dessa criança? Me parece que seria mais rico se conseguíssemos apreciar o natal de outra forma. Vou me arriscar…

Afinal de contas, que tipo de pessoas eram Maria e José? Supomos que acima de tudo eram pessoas comuns, corriqueiros habitantes de uma cidadela de Israel. Cidade pacata, população pacata. Maria devia ser jovem, quem sabe ainda uma adolescente. A vida não era fácil, pelo contrário, muito provavelmente ela tinha uma rotina de trabalho pesado, cozinhando, costurando, capinando, arrumando a casa. A alimentação não era farta, nem variada. Talvez um pouco de pão, azeite, algumas ervas, de vez em quando um peixe, e esporadicamente vinho e cordeiro nas datas comemorativas. José me aparece como um senhor, cuja face transparece idade maior do que a esperada. O sol forte e o trabalho de carpinteiro judiam desse humilde trabalhador. Homem forte, mas fransino, de poucas palavras, pois o estudo era pouco, meio grosseirão como todo homem do povo, entretanto era uma pessoa confiante, que assegurava estabilidade à Maria. Vejo-os numa casinha pequena, simples, paredes de pedras e piso de terra batida. Vocês já conheceram alguma família assim? Eu talvez veja todo dia…

Como recentemente terminei meu estágio em obstetrícia, muitas indagações surgem em minha mente. Como deve ter sido o “pré-natal” de Maria? Será que foi uma gestação tranquila?

Presumo que o acesso a saúde era precário (existia?), e que contou com a ajuda da sabedoria popular e com a sorte dos fatos para se preparar para o natal (parto), assim como muitas adolescentes de hoje.

Como se sabe, gravidez na adolescência é sempre uma gravidez de risco (prematuridade, aumento da pressão, partos mais trabalhosos, etc). Me surge outra pergunta: podemos considerar a gestação de Maria como planejada? Só se for por Deus mesmo… como qualquer gravidez. Apesar de ter originalmente a intenção de se casar com José e constituir uma família, Maria não planejou a

“visita do anjo”, muito menos aquela proposta bombástica. Sim, acredito que ela foi pega de surpresa, assim como tantas mães que se descobrem grávidas de repente. Nem sempre elas vêm na hora mais indicada pelos homens. Maria ficou grávida antes de casar, e seu filho não era do seu futuro esposo. Certamente a notícia da gestação lhe causou muita angústia por um lado, e muita alegria por outro. Tudo isso é muito comum com as mãezinhas de primeira viagem: medo, ansiedade, transformação do corpo, mudança de rotina, julgamento da sociedade.

Vejo agora José recebendo a notícia do recenseamento. Ele fica apreensivo, afinal de contas Maria estava com uma idade gestacional avançada. Que marido recomendaria à esposa, que carrega o filho de Deus nas entranhas, a fazer uma viagem de 150 km enfrentando vento, poeira, calor de dia e frio a noite? Uma gestante com mais de 8 meses de gravidez comumente sente dores nas costas, anda com dificuldade, as pernas incham, sente falta de ar pois o fundo do útero restringe a expansão do pulmão, etc. Imagine fazer isso caminhando na terra ou na areia? Com certeza Maria precisaria de um burrinho. O ideal seria uma charrete, mas isso era para os ricos. Mesmo assim, não posso acreditar que andar 150 km num burro, com uma barriga de 8 meses seja algo confortável. Que marido não ficaria com dúvida entre viajar naquele momento ou aguardar o parto? Afinal de contas, qual é a prioridade, o censo ou a saúde da esposa e do “filho”? Avaliando prós e contras, a família em formação decide viajar. Talvez tenham julgado que seria possível ir até Belém e voltar antes de completar os dias.

Tudo leva a crer que eles foram pegos de surpresa, assim como a vida nos insiste em pregar peças. Chegando a Belém, já ao cair da noite, a bolsa se rompe e Maria entra em trabalho de parto (prematuro?). Há muita poeira e frio. Vejo Maria sobre o burrinho, assustada, contrações fortes a cada 5 minutos, dores viscerais. Ela está com medo, afinal ela é quase uma criança abrigando outra no ventre. Onde será que ele vai nascer? Será que ele nascerá bem? Ela reza incessantemente, e como toda boa mãe, apenas pensa no filho, pedindo ao Pai que ele nasça bem. A cada contração ela se contorse, avisa a José que a dor está muito forte, que está perdendo as forças e talvez não dê conta de ir até o fim.

José está afoito, ou melhor, apavorado! Tenta não transparecer para não estressar ainda mais a sua esposa. Bate nas portas das casas pedindo socorro, todos ignoram, acham que é emboscada. Percebe que está sozinho e que não contará com a ajuda das pessoas. O terror toma conta do seu coração. Maria precisa urgentemente de um lugar para repousar. José avista uma gruta, ou melhor, um presépio. Está ocupada por animais. Não há outra solução. Ele forra o chão sujo de excretas dos animais, misturados com restos de alimentos, e Maria deita sobre a palha espalhada. Ele tenta acalmá-la, dizendo que Deus – literalmente – está com eles, que dará tudo certo. As dores se

agudizam, o cheiro do ambiente é terrível, Maria sente náuseas intensas. As contrações ficam mais fortes e mais frequentes. Ela pede a José que segure a sua mão.

O trabalho de parto progride lentamente, de forma semelhante a toda mãe adolescente que tem o seu primeiro filho. A dilatação do útero é morosa. Muito provavelmente Maria e José passaram a noite do “dia 24” e a madrugada do dia 25 acompanhando a evolução do trabalho de parto, com muito sofrimento.

Maria está exausta. José também. Resta-lhes a confiança no Deus da misericórdia e da compaixão. Vejo Deus torcendo por seus filhos, sem interferir diretamente em nada. Ele quer que seu Filho nasça como os homens, sem privilégios.

Deus por um lado está muito chateado com seus filhos, pois afinal de contas nenhum “filho” deveria passar por tanto sofrimento e dificuldade no mundo maravilhoso que Ele criou para nós. Por que mais uma vez não foram acolhidos pelos seus semelhantes? Por que tanta indignidade? Por que tanta pobreza? Como deixam isso acontecer todos os dias?

O cenário instalado com certeza é de morte. Tudo favorece a um trabalho de parto prolongado e cheio de riscos maternos e fetais. O risco de uma infecção é altíssimo.

Mas teimosamente a vida se arrisca em tentar vencer a morte. Maria e José, unidos naquela empreitada, sentem que o grande momento está próximo. Ela, sozinha, tira forças de onde não mais existia e num grito de liberdade dá a luz a um menino pequeno. No silêncio da madrugada, grita com choro forte para o mundo inteiro ouvir que há esperança para todos. José chora e olhando para Ele agradece ao Senhor: Bendito sejas tu meu Deus! Ele afaga o pequeno menino nos trapos que lhe restam, e o entrega à sua corajosa esposa. Ela o abraça com braços de ternura e aconchego, e chora.

Pronto, tudo está consumado! As lágrimas também brotam do rosto de Deus Pai e de Deus filho. É natal, o pequenino nasceu! Aleluia, aleluia, aleluia!

Será que já não é tempo de mudar essa realidade?

O que podemos fazer para humanizar os partos?

(*) Ricardo é estudante de medicina, casado com Daniela, membro da Pequena Comunidade Dom Luciano. Estuda, trabalha, vive e testemunha em Brasília – DF.


Published in: on 23/03/2010 at 21:24  Comments (1)  
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Cura do homem da mão seca

Uma outra vez, Jesus entrou na sinagoga,
e lá estava um homem com a mão seca.
Eles observavam se o curaria num dia de sábado,
a fim de acusá-lo.

Jesus disse ao homem da mão seca:
“Levanta-te! Vem para o meio!” e perguntou-lhes:
“Em dia de sábado, que é permitido,
fazer o bem ou fazer o mal,
salvar uma vida ou matar?”

Eles ficaram calados.
Passando sobre eles um olhar irritado,
e entristecido porque eram tão fechados,
disse ao homem:
“Estende a mão!” ele estendeu, e a mão ficou curada.

Saindo dali, imediatamente os fariseus,
com os herodianos, tomaram a decisão de matar Jesus.

(Mc 3, 1-6)

Reflexão

O trecho do Evangelho acima, na narrativa de Marcos, revela alguns detalhes que podem passar despercebidos à primeira vista. Trata-se de mais uma cura de Jesus, misericordioso e solidário com o sofrimento humano? Receio que não seja apenas isso.

Jesus entra na sinagoga, local de reunião, estudo e oração da comunidade judaica. Nela estava um homem de mão atrofiada. Ora, naquele tempo a doença e a desgraça eram associadas ao pecado (aliás, como, lamentavelmente, ainda fazem alguns intérpretes mais literais da Bíblia mesmo hoje em dia). Se alguém era portador de enfermidade, logo se associava que se tratava de um justo castigo divino porque tal pessoa abandonara os caminhos do Senhor que retamente lhe aplicara a merecida punição. Assim, tratava-se aquele homem de mão seca de um pecador, no sentido mais frio que o termo possa assumir.

E mais. Lucas, em sua narrativa do mesmo episódio, diz que a mão atrofiada era a direita. Podemos supor, a não ser que se tratasse de um canhoto (situação relativamente improvável), que aquele homem era, além do mais, um à toa ou pior, um incapaz, pois não conseguia trabalhar, tendo sua mão principal, a destra, atrofiada. Dupla razão para preconceito: desgraçado por Deus, devido à sua doença, e inútil para a sociedade, pois não conseguia trabalhar, ao menos em um emprego “mais digno”. Por isso, esse homem, mesmo presente na sinagoga, sentava-se afastado, talvez nos últimos lugares, sentindo-se indigno e desprezado pelos demais, especialmente pelos que se consideravam mais amados e mais favorecidos por Deus.

Mas Jesus o chama. Significativas são a forma (ordem expressa) e as palavras utilizadas pelo Mestre: “Levanta-te! Vem para o meio!”. Levantar-se, aqui, significa não apenas o ficar fisicamente em pé mas, ao mandar fazê-lo, Jesus quer restituir-lhe algo mais que uma mão sadia: sua dignidade. A ordem de Jesus soa como: “Levanta a cabeça! Eu estou contigo! Tu és precioso aos meus olhos!”. E mais: “Vem para o centro!”. Para Jesus aquele homem, mesmo considerado pecador e improdutivo pela sociedade, não deveria ficar à margem na sinagoga, mas era alguém tão merecedor de um “lugar ao sol”, de um assento melhor na comunidade quanto qualquer outro.

Jesus não gosta de exclusão, muito menos numa casa de oração. Para Ele não deve haver secção, tratamento diferenciado, pessoas de diferentes níveis. Por isso o “Vem para o centro!”. É algo como “Toma este lugar, pois em minha casa todos são iguais!” Além do mais, dirá o Mestre em outra passagem: “Eu vim não para os justos mas para os pecadores”. Se há preferidos para Jesus estes são os pobres, os excluídos, os marginalizados, os abandonados. Com estas duas ordens diretas “Levanta-te! Vem para o centro!”, invertendo toda lógica do farisaísmo, que privilegia a aparência e o status, Jesus resgata algo que aquele homem há muito havia perdido: sua dignidade, seu valor.

Os fariseus, então, observavam para ver se aquele Rabi curaria em dia de sábado. O questionamento de Jesus afeta precisamente a visão de religião dos fariseus: o que é mais importante: o cumprimento cego da lei ou a salvação das pessoas e a prática do bem? Esta era a grande questão com os fariseus, zelosos cumpridores da Torá, mas que não viam que por detrás da letra da lei está o bem do homem, a promoção da justiça, a solidariedade e a fraternidade.

Lendo os seus corações e por ver que para eles o mais importante não é o destinatário da Lei, o próprio homem, mas a Lei pela Lei, Jesus lança sobre eles um olhar irritado e fica entristecido com a dureza de seus corações. Em outras traduções da Bíblia lê-se, ao invés de “irritado”, o termo “indignado”. A visão de religião e de sociedade dos fariseus, que considerava mais importante o cumprimento cego da lei, mesmo que isso implicasse em deixar alguém sofrer ou mesmo morrer, deixava Jesus extremamente aborrecido. Jesus fica literalmente indignado e triste com a dureza daqueles corações.

Se quisermos ser iguais ao Mestre, esses dois termos, ficar indignados e entristecidos, também devem estar cravados nos nossos corações. Diante de situações equivalentes, em que o homem é desprezado, ferido em sua dignidade, excluído ou marginalizado por quem quer que seja (pessoa, sistema, sociedade ou lei) deve o verdadeiro seguidor de Cristo ficar também irritado, indignado e triste.

Trata-se do reverso da contemplação. O louvor a Deus, o encantar-se e admirar-se pela sua grandeza e pela beleza e maravilha de Suas obras, enfim, a atitude de levantarmos nossos braços para bendizer ao Senhor deve igualmente ser contrabalançada pela postura de indignação e de tristeza ao vermos a obra-prima de Sua criação, Sua imagem e semelhança, o próprio homem, atingido em seu valor e dignidade. Assim, o movimento de levantar os braços aos céus em louvor e adoração a Deus deve ser acompanhado do abaixar os braços e meter a mão na massa, lutar contra a injustiça, denunciar os esquemas corruptos e perversos que maltratam e humilham o homem. Caso contrário, nossa religião está condenada a se parecer com aquilo que Jesus mais lutou contra, uma religião farisaica, superficial, de cumprimento de normas frias e estéreis, mas que estão, na realidade, distante do homem e da verdadeira intenção de Deus: salvá-lo e promovê-lo.

O entendimento de religião pelos fariseus revela um enorme fatalismo: se alguém é nascido com determinado defeito ou característica que o destoa negativamente dos demais, está aí demonstrado o desprezo divino. O homem, então, é visto de forma estática, como que lançado pela “justiça do alto” em uma casta da qual não poderá sair, a não ser por intervenção direta do céu. Assim era aquele homem da mão seca. Se estava em tal situação (de desgraça), era ali que deveria permanecer. Ao passo que Jesus vê nele o que há de essencial, não sua mão ou outro detalhe qualquer que possa servir de rótulo à sociedade. Para Jesus aquele com a mão seca era, antes de tudo, um homem e, por isso, seu irmão. E precisamente por ser seu irmão é que merece, a despeito de qualquer estado físico, afetivo ou psicológico, ser amado, salvo e liberto.

A falta de misericórdia dos fariseus para com aquele de mão atrofiada nasce da dificuldade de vê-lo como seu semelhante, da mesma forma que temos de ver o outro, por nós considerado pecador, como semelhante (daí o ódio, a repulsa e a sede de vingança por alguém que cometeu um enorme pecado ou atrocidade). Para a elite judaica, detentora de enormes privilégios e do “beneplácito divino”, não era possível se identificar com um homem torto, “marcado por Deus”. Via, por isso, naquele indivíduo um ser diferente, inferior, incapaz, impuro. Jesus, ao invés, via nele a imagem e a semelhança de Deus, ainda que desprezado por uma sociedade que, ao seu ver, agia segundo a vontade do próprio Deus. E dói no fundo do coração de Jesus a prática religiosa de se utilizar do argumento da predileção divina para dominar, excluir e maltratar o outro. Daí seu olhar indignado e entristecido pela dureza e frieza daqueles corações.

O Mestre rompe com os rótulos, desce mais profundamente no ser, vai além da aparência. Não importa, num primeiro momento, o que o homem fez de errado, que pecado cometeu, se tem este ou aquele defeito ou “marca do céu”. Jesus quer é resgatá-lo. Isso é o que importa. Enquanto os fariseus julgam o comportamento e a aparência (o circunstancial), Jesus olha a pessoa (o essencial). Por isso, ele redime, atinge em cheio o coração do homem. Ele vai atrás da ovelha perdida, abandonada, desprezada pelas demais, ao invés de puni-la, como faziam os fariseus, com o abandono, a exclusão e o preconceito que apenas apartam e segregam.

Jesus quer mais que operar um milagre, mas resgatar o homem de tudo aquilo que o oprime. Porque o Cristo lutou contra tudo isso, questionou os valores, subverteu a ordem estabelecida, atingiu em cheio a posição de destaque e de predileção dos fariseus, Ele incomodou. E por isso queriam matá-lo. Eis aí outra característica do discípulo do Mestre: sofrer perseguição. É uma excelente forma de aferirmos se nossa prática da religião está verdadeiramente em conformidade com os ensinamentos de Jesus. Porque a luz incomoda as trevas. A verdadeira prática do Evangelho se traduz em atitudes concretas de libertação que implicam em incomodar e, por isso, em sofrer perseguição. Não uma perseguição qualquer, mas sim aquela que nasce do incomodar estruturas e condicionamentos injustos e cruéis fortemente estabelecidos na sociedade. Se nossa prática cristã não incomoda, não questiona, não denuncia, não atinge as estruturas de injustiça, não vai contra os poderosos que oprimem e humilham os outros, mas apenas se conforma em durante a missa ou culto levantarmos as mãos aos céus e louvar e bendizer ao Senhor, estamos enganando-nos a nós mesmos se achamos que com isso somos cristãos ou agradamos a Deus.

Cura do homem de mão atrofiada. Aparentemente, uma passagem simples do Evangelho; à primeira vista, mais uma cura de Jesus. Mas que, ao ser analisada, revela bem o verdadeiro sentido da salvação operada pelo Mestre. Oxalá este exemplo liberte nossa prática religiosa do farisaísmo, cega às reais necessidades do outro, de modo que se torne, da mesma forma que é voltada ao louvor e à contemplação, mais dedicada à promoção da justiça e da solidariedade para que a obra-prima da criação, o próprio homem, se encontre, sem exceção, como quis Jesus, definitiva e verdadeiramente liberta e, acima de tudo, de pé e no centro.

Published in: on 23/03/2010 at 13:03  Comments (1)  
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Meditação sobre o “Princípio e Fundamento”

por Luiz Beltrão*

Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola começam propriamente com uma meditação intitulada Princípio e Fundamento – P&F. Trata-se de um texto curto e direto, porém denso em significado e conteúdo. Proponho uma breve meditação sobre esse tema que nos abre a porta para o fascinante e encantador itinerário espiritual desenvolvido e experimentado pelo fundador da Companhia de Jesus.

O início do P&F se dá com estas palavras: “O homem foi criado para louvar, reverenciar e servir a Deus Nosso Senhor, e assim salvar a sua alma”. Logo chama atenção a teleologia, o sentido, o propósito da criação. Há uma intencionalidade na ação criadora de Deus. O homem é criado para, logo ele não é o fim, o projeto-alvo, mas deve se situar na perspectiva do plano de Deus. A finalidade de toda a criação é convergir para o seio da Trindade, onde haverá plena participação e comunhão em Deus que é vida e comunicação. E o homem participa desse processo no qual é particularmente convidado a contribuir com sua inteligência e criatividade na condução da criação para esse mesmo fim.

Vejamos, agora, o sentido de cada uma das palavras.

A expressão louvar implica a atitude de atenção, de admiração, de contemplação, de espanto e de encantamento em relação ao Absoluto. Não se trata de temor, mas de maravilhamento diante da beleza, da majestade e da ternura infinitas de Deus que, do alto de sua glória, decide livremente a tudo criar e convidar a participar consigo de Sua plena felicidade. O encantamento exige prestar atenção, parar, se admirar, se enamorar por Deus e por sua obra. Implica silêncio, escuta, pausa, atitudes pouco valorizadas em nossa sociedade que privilegia a pressa e as relações efêmeras e superficiais.

Adivirta-se que a mesma atitude de encantamento carrega, inevitavelmente, um outro lado, como que a outra face de uma mesma moeda. Trata-se da atitude de indignação, quando a realidade criada por Deus é aviltada e pervertida em seus propósitos. Se, de um lado, o louvor tende a elevar os olhos aos céus, num gesto de completo extasiamento, por outro viés esses olhos necessitam permanecer sempre abertos e atentos à realidade, para que a glória de Deus atinja, de fato, todos os recantos que o homem possa influenciar. A indignação é a chama que arde e que consome o ser humano, impelindo a reorientar a Glória e a Justiça de Deus que deixaram de ser percebidas e contempladas em determinada realidade. Em suma, o louvor no P&F implica reconhecer dócil e ternamente a Deus como a meta mais além para a qual toda existência se projeta, sobre o que importa a participação e a colaboração inflamadas do próprio homem.

Em seguida, há o reverenciar. Por meio da reverência, o cavaleiro ou o servo se curvam, se prostram diante de seu senhor e a ele se tornam disponíveis. Em Santo Inácio o reverenciar se relaciona com essa atitude de acolhimento humilde, de se colocar à disposição, de se dobrar à vontade do Outro, se conformando com o Seu querer. É a postura de quem se deixa plasmar e moldar sem reservas pelas mãos de Deus, como o barro nas mãos do oleiro (Jr, 18,1-6). A reverência obriga o silêncio, a fim de que se escute com atenção a essa outra voz, que chama o servo a servir. Pois muitas vozes se fazem presentes na mente atribulada e acelerada do homem moderno. Reverenciar significa reconhecer que não podemos atingir nossa felicidade sozinhos, que nosso coração só encontra pouso e sentido na voz de um Outro que é mais interior que o mais íntimo de nós mesmos (Santo Agostinho, Confissões).

Há, depois, o servir. Tendo prestado atenção, se embevecido de encantamento e amor por Deus, internalizado Sua vontade, se deixado moldar por Suas mãos e se disposto a fazer o que Ele quer, resta ao servo partir e colocar em prática a vontade de Deus. O serviço implica ao peregrino entrar de modo consciente e ativo na ciranda da existência, no bonde da história, acrescentando a essa sinfonia o seu timbre próprio, cooperando com Deus na Sua obra para que tudo se potencialize, se harmonize, cumpra o seu fim e se encontre em Deus. Servir a Deus é se afinar ao Seu projeto de levar a história à plenitude, onde todos tenham vida em abundância. Jesus deu a esse projeto o nome de Reino de Deus; esta deve ser a nossa bandeira, a nossa causa, pois são a causa e a bandeira de Jesus.

No fim da primeira frase do P&F Santo Inácio diz: “e assim salvar a sua alma”. Há muitas acepções para o termo salvar, mas aproximam-se do que nos parece razoável os significados de livrar do perigo, levar a um lugar seguro. Mais precisamente, tem a ver com encontrar pouso, repouso, lugar onde se fica em paz, em segurança, em harmonia. Salvar, nesse sentido, tem a conotação de completar-se, de plenificar-se, de encontrar sentido, o que só ocorre em Deus. Salvar é imprimir significado à existência, cuja meta só pode ser o coração de Deus, onde tudo se completa, se integra, se harmoniza.

As três expressões, louvar, reverenciar e servir, apenas têm sentido se se imbuírem uma da outra. São diferentes matizes de um mesmo feixe de luz. O louvor, relacionamento amoroso, apenas tem sentido se encontra ouvidos atentos e almas dispostas a se deixarem moldar por esse amor, o que necessariamente implica transbordamento em ação-serviço. A reverência só é verdadeira se brota de uma experiência amorosa (louvor) e apenas é válida se se torna concreta em gestos de disponibilidade e doação. O serviço só é digno e fecundo se é decorrência da plena apropriação e total identificação com os planos e vontades de Deus que deverão ser construídos, o que ocorre apenas após uma profunda reverência e conformidade amorosa de quem se deixou amar e envolver pelo Senhor. E tudo isso é o que significa salvar a alma, dar-lhe pouso, sentido, completude e paz.

Indiferença amorosa

Tudo é criado para o fim, que é Deus mesmo. Esse para indica processo, percurso, caminho. Ao longo desse itinerário tudo se encontra em movimento, numa dança evolutiva, em busca de sínteses cada vez maiores e mais complexas. Formamos, toda a existência, uma grande família, uma magnífica sinfonia, uma maravilhosa teia que terá sua consumação plena e definitiva em Deus. Em relação a essa teia não nos cabe isolar-nos. É imperativo o relacionamento, a interdependência, a comunicação, a comunhão e a solidariedade, pois ninguém é auto-suficiente.

O “problema” está em como nos relacionamos com as demais criaturas, aí incluídos os nossos sentidos, nossa corporeidade, nosso temperamento, nossa personalidade. Perigo é fazer desses dons de Deus, que são meios para encontrá-Lo, fins em si mesmos. Pois se o fizermos estaremos limitando nossa potencialidade, desvirtuando o sentido original das coisas, abrindo mão de nos realizarmos a nós mesmos, como cooperadores de Deus, e de realizarmos Seu projeto. Mais grave é que ao colocarmos tais coisas como meta, como propósito, nos fazemos escravos delas e, para piorar, escravizamos nossos irmãos.

Nesse relacionamento obrigatório com a criação, é imperioso que usemos das coisas com sabedoria e liberdade, desapego e moderação, para que cumpram com sua vocação de “trampolins” para Deus. Santo Inácio chama a isto de indiferença, termo ao qual poderíamos acrescentar o adjetivo amorosa. Talvez, melhor que indiferença seria utilizarmos a expressão liberdade. Pois não se trata, em hipótese nenhuma, de desprezo, mas de ordenar as coisas, hierarquizá-las, disciplinar as afeições em relação a elas, colocando-as em seu devido e precioso lugar. Segundo a mística inaciana, todas as coisas (pessoas, relações, situações e circunstâncias) são epifania de Deus, pois revelam Sua marca, Sua assinatura. E como únicas têm seu espaço próprio e devem cumprir, de maneira única, seu papel na nossa história pessoal. Em outras palavras, cada uma tem um nicho específico e é aí onde deve alcançar sua plenitude. Devemos dar a cada entidade da criação a atenção, o peso e o valor que lhes são justos e nada mais. Em outras palavras “guardar delas uma distância saudável. É a isto que Santo Inácio chama de aproximar-se ou afastar-se delas, “tanto quanto” for útil para o bem de nossas almas.

Deus nos chama a amadurecer nossas relações, a começar de dentro de nós mesmos. Importa não darmos maior atenção às pessoas, aos fatos ou às situações do que o necessário. Como nos custa abrir mão de melindres, de orgulhos, da sensibilidade excessiva e prejudicial! Quanto tempo perdemos alimentando mágoas, nos apegando ao que disseram, supostamente disseram ou pensam de nós! Como nos afeiçoamos a nossos sentimentos e orgulho feridos, a pessoas e suas impressões!

As relações (com as pessoas, com as coisas, com os sentimentos) são como árvores: há aspectos que devem ser adubados, alimentados, potencializados. Mas há outros que devem ser corrigidos, iluminados, podados ou, até mesmo, extirpados. Discernir a ação correta é essencial. Toda árvore que der fruto, o Pai a podará para que dê mais fruto ainda (Jo 15,2). Deus nos quer livres de amarras que literalmente aprisionam nossa alma, nossa potencialidade de nos realizarmos e cooperarmos para a plena realização da criação. Essa indiferença amorosa gera desapego, que acarreta liberdade e, por isso, maior disponibilidade a Deus. Em uma palavra, maior utilidade para Seu projeto.

Mística do mais

Se o homem é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus e assim salvar a sua alma e se tudo isso é um processo, uma caminhada, um percurso, quanto mais nos aproximarmos desse fim, mais completos, plenos, harmônicos e integrados estaremos. Santo Inácio nos diz para buscarmos o que mais nos aproxima desse fim. O mais será um termo que muito veremos na caminhada inaciana.

Para Santo Inácio não basta viver uma vida “normal”, no sentido de morna, insossa e sensabor. Não significa procurar fazer o extraordinário, mas viver o ordinário da melhor maneira possível. Um outro santo disse certa vez: “O bem deve ser bem feito”. Quanto maior, mais universal, mais generoso e melhor feito for um gesto, melhor será esse agir. Há que se dosar aí o sentido de humildade, o reconhecimento de nossa imperfeição e de nossa impotência sem Deus (Jo 15,5). Porém, isso jamais poderá significar a mediocridade que aliena e que deixa de dar o passo a mais quando este é necessário.

A cada momento de nossa vida, que é único e irrepetível, devemos dar mais de nós mesmos, o que significa vivê-la intensamente e da melhor maneira possível, de modo que não nos arrependamos do que fazemos ou deixamos de fazer. Viver cada dia como se fosse o último, cada instante como se fosse o único. Cada pessoa, cada realidade, cada situação exige o melhor de nós, o passo a mais do peregrino insaciável do Absoluto. Será apenas na perspectiva desse passo a mais e na misericórdia gratuita de Deus, que nos alenta em nossas quedas e infidelidades, que poderemos nos sentir plenos e descansados, que perceberemos nossa alma como salva, tranquila, liberta e em paz. Longe de nós a desmotivação, a acomodação e a auto-centração que não transformam. Pois Deus é elã, é movimento, é música que impulsiona a dança, rumo ao Seu próprio coração, para o qual nos chama.

Em suma…

Somos criados para manter uma relação de dependência amorosa para com Deus, uma abertura fecunda e generosa de nossa parte àquele que é Todo-Generoso e Todo-Ternura. Tal relação se desdobra na tríplice unidade de louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor. Apenas assim completamos (salvamos) nossa alma, damos-lhe o devido sentido, o devido descanso, a devida paz. E devemos nos aproximar das demais coisas tanto quanto nos ajudem a nos inserirmos e a colaboramos com esse projeto.

Deus, Nosso Senhor, já nos cumulou com toda a sorte de bênçãos espirituais (Ef 1, 3-14), com tudo aquilo que é necessário para que atinjamos nosso fim. Afinal, Ele é presença que, desde dentro, em tudo opera.

Que nada nos desvie dessa meta, mas que tudo seja usado com liberdade, de maneira ordenada e madura e que possamos cooperar com Deus para levar a história à sua plenitude, no coração do Pai, onde, enfim, Deus será tudo em todos.

Trata-se de um longo caminho. Tal perspectiva é apenas o início, mas uma ótica necessária que deverá fermentar toda a nossa caminhada. Não por acaso é chamada por Santo Inácio de Princípio e Fundamento.

(*) Luiz Beltrão é mestre em Ciências Florestais, casado com Renata, com quem teve duas meninas e um menino. membro da Pequena Comunidade Dom Luciano. Reside, trabalha e testemunha em Brasília – DF.

Reflexão por ocasião da festa de Santo Inácio de Loyola

por Luiz Beltrão*

Se a vida dos santos fosse muito diferente daquela que qualquer um de nós poderia viver, pouco mérito isso teria. Pois seria algo tão quimérico e tão longínquo que poucos conseguiríamos atingir. De nada servem os exemplos se são por demais difíceis de serem imitados. Mas se a vida dos santos está, como de fato cremos, ao nosso alcance, a de Inácio de Loyola parece ainda mais se aproximar às nossas possibilidades. De fato, o mais extraordinário em sua vida não são os êxtases, as experiências místicas ou os rigores vivenciados, mas a firmeza da decisão tomada e perseguida de buscar e encontrar seu Deus, por quem vai se apaixonando cada vez mais, de descobrir Sua vontade no concreto de sua vida e de cumpri-la, tornando-a também sua vontade.

O processo começa em Loyola, na casa de seus parentes, quando lenta e dolorosamente se recupera de um ferimento em suas pernas causado por uma bala de canhão. Aos poucos esse jovem impetuoso e quase destemperado vai se convencendo que as satisfações que as coisas que o mundo podem lhe oferecer são incapazes de saciar sua alma. Vai percebendo que sua sede viva e infinita só pode ser aliviada por uma fonte de água igualmente viva e infinita.

Felizmente, para a nossa maior identificação, a caminhada de Santo Inácio também demonstra que essa decisão não está livre de percalços e desvios. Chega a ser hilário, quase trágico, o episódio em que o mestre do discernimento, fulo da vida com um mouro por questões de doutrina, deixa à escolha de uma mula se aquele infiel deveria viver ou não. Bendita e sábia mula! Também não deixa de chamar a atenção seu excesso de voluntarismo, suas penitências exageradas, como se com isso fosse conseguir comprar o perdão divino e a paz de sua alma. Mas Deus vai, aos poucos, lenta e pacientemente, ensinando-o, como uma professora ensina a um aluno. E Inácio vai amadurecendo, como Pedro, no conhecimento, no amor e no serviço a Deus.

Característica da percepção que Santo Inácio tem da divindade é que o mesmo Deus Glorioso e Triunfante da Ressurreição é o Deus humilde e silencioso, da Encarnação. Radicalizando ainda mais, Inácio intui que o Deus de majestade é, inseparavelmente e ao mesmo tempo, o Servo que se esvazia e se faz pobre e pequeno. A maior glória de Deus, tão buscada por Inácio e seus companheiros, se esconde e se revela, desde já, no esvaziamento e no serviço mais humilde, a exemplo do que fez o próprio Senhor. Pois se Deus, desde dentro, age, inspira e anima a criação, o evento da Encarnação lhe traz uma novidade toda especial. Nas palavras de João Paulo II, “o Eterno entra no tempo, o tudo se esconde no fragmento, Deus assume o rosto do homem” (Fides et Ratio). Mais ainda, Deus assume a história do homem, de todo homem, de qualquer homem e de cada homem em particular, e com ela se identifica de maneira para sempre indissociável.

Para Santo Inácio servir ao Deus da Glória é servi-lo na identificação com a pobreza, escolhendo o mesmo caminho de Deus de se colocar junto àqueles que sofrem ou são rejeitados pelo sistema social, econômico, religioso, político ou cultural. Por isso, o peregrino de Loyola vai procurar desenvolver nele e em seus companheiros a perspectiva de que amar a Deus é amar o que Ele amou; que servir a Deus é escolher as Suas escolhas, ter os mesmos sentimentos, os mesmos critérios e os mesmos valores de Deus. Se, como nos disse Jesus, “Deus amou tanto o mundo que lhe deu seu Filho único” (Jo 3, 16), para Santo Inácio o cristão, se pretende dizer que ama a Deus, deve ser irremediavelmente apaixonado pelo mundo.

Mas isso será um lento processo de identificação, ao ponto de não comportar mais cisões. Como na canção de Beto Guedes, “tudo que move é sagrado”, para Santo Inácio toda a realidade passa a ser epifania de Deus, diafania. Então, como não ser apaixonado pelo mundo, por cada canto da criação, por cada realidade humana? Como não se encantar com a realidade criada, amada, querida e encarnada por Deus, ainda que marcada pela contingência da finitude e pela abertura à possibilidade do mal? Como não se inflamar com cada escolha de vida, com cada gesto de ternura, cada promoção de justiça, de dignidade e de partilha? Mas, precisamente por isso, como não se indignar por cada escolha de morte, cada privação de vida a que é submetida a maioria dos filhos do mesmo Pai? Pois “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração”, como nos exorta o Concílio.

Outra marca significativa da mística inaciana é seu caráter teleológico, seu sentido, sua orientação. Ao contemplar o mistério da criação, Inácio vê, com os olhos interiores, como todas as coisas se originam de Deus e para Ele se voltam. Para Santo Inácio toda a criação está orientada nesse eixo, nessa perspectiva, que deverá contar com a colaboração de cada ser humano, de conduzir toda a criação ao descanso definitivo em Deus. Ocorre que essa correnteza encontra uma enorme e definitiva cachoeira, derradeiro ponto de inflexão, com o evento Jesus. Ele é a humanidade humanizada, a imagem verdadeira de Deus e a imagem verdadeira do verdadeiro homem. Jesus nos inaugura o Reino, um tempo novo, um fogo novo. Como disse numa certa ocasião: “Eu vim trazer fogo à terra e como gostaria que já estivesse aceso” (Lc 12, 49).

Diz a lenda que Santo Inácio, ao enviar Francisco Xavier em missão, lhe disse: “Ide, acendei e inflamai todo o mundo”. Eis o convite para nós, discípulos, amantes e simpatizantes do nosso santo: que sejamos um fogo que acende outros fogos. O fogo suave da ternura, da ética e do cuidado, mas igualmente o fogo devorador da defesa da justiça, da dignidade e daqueles que sofrem. Onde houver uma realidade que clame pelo Reino de Deus e por sua Justiça, que lá estejamos nós, jesuítas e inacianos, a acendermos esse fogo abrasador que haverá de consumir toda a terra.

Talvez não façamos nada de extremo, nada de mirabolante ou de apoteótico. Se assim for, estaremos em boa “C”ompanhia. O essencial é que no concreto de nossa vida sejamos comprometidos e apaixonados pelo Deus dos homens e pelos homens de Deus; pelo Deus do mundo e pelo mundo de Deus; pelo Senhor da História e pela história dos homens. Que sintamos como nossas suas alegrias e suas dores, suas angústias e seus ais, seus lamentos e suas esperanças. E que em nossa realidade cotidiana estejamos atentos ao sopro, ao vento, aos apelos dos tempos para que sejamos sal e luz. No mundo e do mundo sejamos simplesmente ignição, ignacianos.

Santo Ignácio de Loyola,
Rogai por nós!

(*) Luiz Beltrão é marido de esposa linda, pai de três filhos maravilhosos. Apaixonado por Santo Inácio, colabora com o Centro Cultural Brasília (CCB) e milita em favor da Mãe Terra e de seus filhos.

Published in: on 23/03/2010 at 12:53  Deixe um comentário  
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Suportai-vos uns aos outros

Fernando Dias Cyrino*

Vivemos tempos de crescente individualismo. As pessoas por medo da violência, por se sentirem excluídas, pelo receio de serem feridas e até mesmo pelas facilidades tecnológicas, acabam por se fechar aos que convivem com elas. Fazem isto ao mesmo tempo em que se abrem descompromissada e superficialmente, aos mais distantes e a Internet é um exemplo disto. Este fenômeno faz com que na Europa já haja países nos quais cerca da metade da sua população jovem já vive sozinha.

Este não é um comportamento saudável. Fomos criados para ser comunidade, como nosso criador o é. O fechamento é processo desordenado que leva à solidão e ao egoísmo, fazendo-nos esquecer de que a vida só adquire real sentido quando colocada a caminho do semelhante. O meu irmão não mais afeta. Ele vai se tornando um ser indiferente, com o qual não tenho que me pré-ocupar. O afeto que deveria se colocar como presente (graça) aos outros é gasto desordenadamente no engano de se querer bastar.

Com isto as relações tornam-se mais rasas. Aprofundá-las é arriscar-se, o mesmo que ir se desnudando para o outro, à medida em que ele também vá se abrindo e isto quer dizer que ficarão visíveis não somente as qualidades, mas também as falhas e defeitos de ambos. Conhecer profundamente gera compromissos e o convite que a sociedade faz a todos repetidamente é que eles não devem ser assumidos. Melhor viver a vida de maneira superficial, descartando o outro que me incomoda ou que busca maior intimidade.

Deixar que as relações fiquem na superfície é torná-las pobres. Nessa direção, mantém-se em evidência e se busca conhecer no outro apenas o que reforça aquilo que se tem e se vive. Aquilo que já se conhece e que não ameaça, mas apenas vem reafirmar os comportamentos e atitudes. Mesmo que estes não sejam os mais saudáveis e adequados.

Se na relação interpessoal o aprofundamento das relações é necessário ao crescimento, mais ainda o é nas comunidades. Sejam essas de qualquer tipo. Comunidades religiosas, de trabalho, de partilha de vida, ou de interesses comuns. Todas elas necessitam, para que se mantenham saudáveis, que os seus componentes busquem conhecer-se mais e nesse conhecimento, que possam aceitar-se e enriquecer-se nas diferenças.

Somos muito diferentes uns dos outros. Cada ser humano é mistério único e maravilhoso de Deus e tem a sua forma peculiar de ver e sentir o mundo. O problema é que muitas vezes esta maneira de pensar, sentir e agir não nos é agradável. Ou mesmo que a ação ou inércia do outro na comunidade e na relação interpessoal não seja assertiva, dando-se de maneira agressiva, ou passiva, o que gerará afastamentos, conflitos e reforçará ainda mais a superficialidade das relações.

Uma comunidade na qual todos têm sempre as mesmas opiniões, gostam das mesmas coisas e compartilham das mesmas ojerizas é uma comunidade pobre. Uma das regras básicas da existência de uma comunidade é que se ela não está crescendo, estará necessariamente retrocedendo. O fato é que não existe comunidade estabilizada. Se a sua dinâmica interna não tende ao crescimento é porque vive fugindo das tensões que só o convívio com o diferente é capaz de trazer. Comunidade assim transforma-se em clube de amigos que mantêm respeitosa distância uns dos outros na desculpa constante do politicamente correto. O que não percebem é que vivem processo regressivo tendendo ao desaparecimento.

Quando escreve aos Colossenses Paulo tem uma frase genial e que nesses tempos de relações líquidas e rasas, precisa ser mais aprofundada pelas comunidades e também por aqueles que pretendem crescer como pessoas. Ele falando aos membros da comunidade, diz que é preciso que “suportemo-nos uns aos outros” (Col. 4,2)

É comum que se veja esta afirmação paulina apenas pelo seu aspecto negativo. Nessa perspectiva do olhar, o suportai-vos uns aos outros é visto como um suplício, a “cruz” da convivência humana que se tem que carregar diariamente, pois que, conforme dizia Sartre, “o inferno são os outros”. Este seria o suportar como uma carga pesada tendo que agüentar o que não suporto no meu irmão ou companheiro de caminhada.

Busquemos um novo ponto de vista. Olhemos a expressão paulina também pelo seu lado positivo. Dessa forma o suportai-vos uns aos outros passa a ter nova conotação. Será visto como apoiemo-nos uns nos outros, demo-nos a mão para que nos tornemos mais fortes, mais capazes e para que possamos caminhar melhor e mais rápido rumo aos objetivos traçados. Nesse aspecto a expressão passa a ter o sentido de crescer juntos, de aprofundar as relações no cuidado do outro para que a vida passe a ter sentido, seja divinizada ficando mais rica e bonita.

É fácil reparar que quando não estamos bem vamos naturalmente para o lado negativo da expressão de São Paulo. Naquela hora onde mais precisamos ser suportados, vemos o outro como alguém a quem não me gostaria suportar. Nessas horas costumamos refletir o incômodo sentido nos companheiros à volta e acabamos por transferir para eles as dificuldades internamente sentidas.

Somos diferentes e isto tem uma finalidade. É para que façamos o mundo mais rico. Cada um tem seus talentos e potencialidades que precisam ser colocados em comum gerando complementaridade e o crescimento de todos. Caso não haja crescimento dos outros o meu desenvolvimento também estará prejudicado e o que pode ocorrer será uma falsa sensação de poder. Uma visão equivocada da realidade, cheia de auto-engano, quando nos consideraremos como melhores e maiores do que os semelhantes. Considerar-se e colocar-se assim não necessariamente é feito de forma consciente. O pouco conhecimento que temos de nós mesmos faz com que vivamos isto sem que desta atitude ou ação estejamos nos dando conta.

Suportarmo-nos uns aos outros, numa comunidade onde haja vida espiritual é estar unidos em oração com o irmão. Não só pelo que nos é simpático ou que consideramos amigo, mas também por aquele que não simpatizamos e que temos ainda dificuldade de amar.

(*) Fernando Dias Cyrino é leigo animado pela espiritualidade inaciana, casado, 4 filhos, consultor de desenvolvimento empresarial.

Published in: on 01/12/2009 at 21:46  Deixe um comentário  
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Modo cristão de proceder

samaritanoPassagem do fazer ao ajudar

Pe Adroaldo Palaoro, SJ

Estamos mergulhados numa cultura de resultados, distraídos e perdidos na variedade de luzes, cores, sensações passageiras, vivências superficiais… A existência inteira faz-se maquinal e rotineira.

Vivemos uma quantidade de experiências rápidas, amontoadas, sem possibilidade de avaliação… e vamos perdendo, pouco a pouco, o sentido da história pessoal e comunitária. O cotidiano torna-se convencional e, não raro, carregado de desencanto, pesado, estressante… Corremos o risco de sermos apenas imitadores ou repetidores, pois tememos nos perder na busca do novo.

Vivemos a compulsão da utilidade, preocupando-nos unicamente com o fazer.

Como colaboradores cristãos, fazemos as coisas que fazemos, poucas ou muitas, talvez demasiadas; umas, gostamos mais, outras, menos; umas são escolhidas, outras impostas; umas as elegemos, outras não temos outro remédio a não ser fazê-las. Com isso, nossa missão se transforma em puro ativismo, ou seja, fazer por fazer, fazer para afirmar-se, fazer para brilhar, fazer para produzir, fazer para impor…

Vivemos, numa comunidade cristã, o drama da desintegração: atividades soltas, desprovidas de inspiração e criatividade, num ritmo burocrático e sem o exercício da avaliação das mesmas. Falta uma referência e um horizonte que unifique tudo, que possibilite reorientar e canalizar nossas potencialidades, impulsos, inspirações, que desperte nossa paixão e dê novo sentido à nossa missão.

É aqui que se situa a simples e genial intuição inaciana: o horizonte é ajudar.

Ajudar é o coração que moveu a vida pessoal e apostólica de Santo Inácio e a proposta que dele recebemos para viver com alegria e sentido nossa própria vida e missão. Com este verbo, Inácio de Loyola expressou modestamente seu grande desejo de fazer o bem aos outros.

No ajudar unem-se o amor a Deus e o amor à pessoa humana, a experiência interior e a ação cotidiana, a ação e a contemplação; nele se expres-sa e verifica a profundidade e o enraizamento da pessoa comprometida com a dura realidade das exigências cotidianas da vida; nele convergem a busca de Deus e o compromisso com o mundo.

Ajudar nos remete a uma espiritualidade ativa, mas que não consiste meramente em fazer, nem se acomoda com qualquer forma de fazer.

Ajudar mobiliza e integra todas as dimensões de nossa vida na missão (física, afetiva, espiritual…)

Ajudar é oposto do ativismo, que é um fazer insensato, sem sentido e sem direção. Ajudar é fazer com inspiração, com horizonte de sentido; é perguntar-se continuamente:

Por que faço isso? para quem faço? por que faço dessa maneira?…

Ajudar não é substituir os outros naquilo que eles podem e tem de fazer, ou dizendo o que tem de ser feito, muito menos impondo-se de nenhuma forma, mas colocá-los em condição de que eles mesmos se experimentem ajudados, descubram por isso o Deus que ajuda a todos e sintam o impulso para ajudar a todos como ideal de suas vidas.

Ajudar nos permite trabalhar descansadamente, encontrando prazer e humor naquilo que fazemos, porque iluminado por um horizonte que nos atrai.

Ajudar, como atitude pessoal, é o equivalente ao termo evangélico servir.

Um ajudar (servir) que brota da experiência de ser ajudado (servido) por um Deus servidor.

Como passar, pois, do mero fazer ao ajudar?

Para ajudar de verdade, é necessário em primeiro lugar, que nosso fazer esteja atravessado de visão, de escuta, de atenção, de compaixão e contemplação à pessoa do outro e às suas necessidades; que não seja, simplesmente, a aplicação de um plano ou esquema pré-estabelecido, pensado a partir de nós mesmos.

Dificilmente nossa ação será ajuda se não captamos e não nos fazemos sensíveis às necessidades dos outros; ao impor-lhes nossos planejamentos, mediremos os resultados em função deles terem ou não se ajustado a nosso plano e medida, e não em função do progresso ou crescimento como pessoas.

Nesse caso, seremos nós mesmos os protagonistas de nossa ação; pelo contrário, ajudar significa des-centrar-se e implica dar ao outro o protagonismo na intenção e na ação, fazer o outro protagonista, devolver ao outro a autoria, a autonomia…

Essa atitude interna e permanente de cuidado, escuta, olhar o outro e suas circunstâncias, vai nos situar numa segunda dinâmica: trata-se da atitude contínua do exame, da busca, da pergunta, do discernimento:

O que é o melhor para o outro? O quê lhe ajuda mais?

No fazer perguntamos pela quantidade; no ajudar perguntamos pelo melhor; no fazer repetimos, no ajudar criamos; no fazer o centro sou eu, no ajudar o centro está no outro…

Se vamos ao outro com um plano ou programa pré-estabelecido, uma vez aplicado, fecha-se o processo; fazemos o de sempre, cumprimos nosso horário e nossa obrigação, e pronto.

Olhado a partir de nós mesmos o puro fazer justifica, a mera repetição serve, os atos viram rotina… Com isso, a tendência é ficar como estamos, a resguardar-nos e defender-nos frente às exigências da missão.

A prioridade da atenção aos outros nos obriga a pensar, a inovar, a propor de uma outra forma, a mudar… porque na vida nada permanece quieto, e hoje menos ainda. Só assim, quando nosso fazer é dinâmico, ele se transforma em ajudar. O carinho e a sensibilidade para com os outros, o desejo profundo e sincero de ajudar é o que vai nos mobilizar.

A questão não é o que fazemos, mas o que comunicamos com o nosso fazer.

Além disso, ajudar tem maior visibilidade quando a missão é vivida em grupo (corpo apostólico), quando a colaboração com outros e a partilha em comum tornam-se um modo de proceder, esvaziando-nos de toda pretensão de sermos individualistas salvadores para sermos simples servidores.

Como a vida é um todo, a determinação interior de ajudar gera atitudes vitais, modos de proceder na comunidade, inspirados por uma mística.

A primeira e mais importante das atitudes é a de respeito profundo às outras pessoas em toda sua dignidade; é buscar e perceber a presença de valores de cada ser humano concreto, para além de seus limites, fragilidades e problemas pessoais; atitude que é possibilitada por um olhar atento e contemplati-vo e por uma relação pessoal que, ao não ser prepotente nem soberba, permite que a outra pessoa se revele, se manifeste, com toda sua densidade de pessoa humana. Se a lógica profunda do nosso fazer é ajudar, devemos fazer mais por aqueles que mais ajuda necessitam, por aqueles mais desvalidos, que são mais fracos, que estão mais desprotegidos…

Ajudar não vai na linha do impor, senão do propor. Trata-se, isso sim, de propor com qualidade, com firmeza, com proximidade, com compromisso pessoal, tendo cuidado especial na arte do acompanhamento. Isso requer presença gratuita, desinteressada, centrada no bem da outra pessoa, sem criar dependências afetivas, mas fazendo o outro crescer em liberdade.

Ajudar pede um coração magnânimo, ou seja, grandeza de horizontes, de desejo e de sonhos; mas, ao mesmo tempo ajudar é uma expressão que convida à humildade: porque ajudar é descer ao nível do outro; para isso somos convidados à renúncia dos nossos próprios critérios, pontos de vista, modos fechados de viver…

Não ser intimidado pelo máximo,
mas caber no mínimo, isso é divino.

 

Textos bíblicos:

Lc. 10,38-42 Col. 3,12-17

Na oração:

  • Ajudar faz espiritual toda a vida; em linguagem bíblica, o Espírito nos faz capazes de ajudar.
  • Ajudar os outros, inspirados e animados pelo Espírito de Jesus, é o que torna espiritual nossos atos, nossos pensamentos, nossos trabalhos, nosso compromisso apostólico, nossa vida inteira…

* Sua missão numa comunidade cristã: simples fazeção burocrática ou espaço de ajuda criativa?

 

Pentecostes

Oração do Cardeal Suenens

MaronitePentecostIconAjuda-nos a reavivar a chama dos primeiros cristãos e o poder da primeira evangelização, que começou numa manhã de Pentecostes no Cenáculo de Jerusalém, onde teus discípulos, reunidos em oração com Maria, esperavam, Pai, que tua promessa se cumprisse.

Dá-nos a graça de sermos renovados em Espírito e em fogo, e que termine a era dos cristãos tímidos e mudos, que discutem inquietos nossos problemas de hoje, como antes no caminho de Jerusalém a Emaús, e não sabem que o Mestre ressuscitou e está vivo.

Senhor, abre-nos à acolhida de teu Espírito Santo.

 

Colaboração de Socorro Carvalho

 

 

Published in: on 30/09/2009 at 14:01  Deixe um comentário  
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Alberto Hurtado

alberto_hurtado_-_hogar_de_cristo

Alberto Hurtado Cruchaga nacido en Viña del Mar, Chile, el 22 de enero de 1901. Quedó huérfano de padre a la edad de 4 años. Su madre se vio obligada a vender en condiciones desfavorables su propiedad para pagar las deudas de la familia. Como consecuencia de ello, Alberto y su hermano debieron ir a vivir con parientes, y a menudo a transferirse de uno a otro de ellos. Así experimentó desde pequeño la condición de los pobres, sin casa y dependiendo de otros. Una beca le permitió estudiar en el Colegio San Ignacio de Santiago. Aquí se hizo miembro de la Congregación Mariana (lo que hoy son las Comunidades de Vida Cristiana, CVX) y como tal se interesó vivamente por los pobres, yendo a trabajar con ellos a los barrios más miserables todos los domingos por la tarde.

Terminados los estudios secundarios en 1917 quiso hacerse jesuita, pero le recomendaron postergar la realización de su deseo con el fin de que se pudiera ocupar de su madre y su hermano menor. Trabajando por las tardes, logró mantener a los suyos y al mismo tiempo estudiar en la Facultad de Derecho de la Universidad Católica. En este período continuó dedicándose a los pobres, a quienes seguía visitando cada semana. El deber del servicio militar le hizo interrumpir sus estudios, pero luego pudo graduarse al inicio de agosto de 1923.

El 14 de este mes entró al Noviciado de la Compañía de Jesús en Chillán, Chile. En 1925 se trasladó a Córdoba, Argentina.

En 1927 fue enviado a España para realizar sus estudios de filosofía y teología. Sin embargo, la expulsión de los jesuitas de este país en 1931 le obligó a partir a Bélgica y continuar la teología en Lovaina. Allí fue ordenado sacerdote el 24 de agosto de 1933. En 1935 obtuvo el doctorado en Pedagogía y Psicología. Después de realizar la experiencia de Tercera Probación en Drongen (Bélgica), regresó a Chile en enero de 1936.

Una vez que volvió a su patria, su celo apostólico se fue extendiendo paulatinamente a todos los campos. Comenzó su actividad como profesor de Religión en el Colegio San Ignacio y de pedagogía en la Universidad Católica y el Seminario Pontificio. Escribió varios artículos sobre educación y acerca del orden social cristiano. Construyó una casa de Ejercicios Espirituales en un pueblo que hoy lleva su nombre. Fue director de la Congregación Mariana de los jóvenes del colegio, a quienes invitó a ser catequistas en medios populares. Dio Ejercicios Espirituales en incontables ocasiones. Fue director espiritual de muchos jóvenes, acompañando a varios en su respuesta a la vocación sacerdotal, y contribuyendo notablemente a la formación de muchos laicos cristianos.

En 1941 el Padre Hurtado publicó su libro más famoso: «¿Es Chile un país católico?». En el mismo año se le confió el cargo de Asesor de la rama juvenil de la Acción Católica de la Arquidiócesis de Santiago, y al año siguiente, de toda la nación. Desempeñó el cargo con extraordinario espíritu de iniciativa, dedicación y sacrificio.

En octubre de 1944, mientras daba un retiro, sintió una imperiosa necesidad de llamar a la conciencia de sus auditores acerca de la necesidad que pasaban muchos pobres en la ciudad, y en especial muchos niños que vivían en las calles. Esto despertó una pronta reacción generosa. Fue el inicio de la iniciativa que ha hecho más conocido al P. Hurtado: se trata de aquella forma de actividad caritativa que ayuda a gente sin techo, dándole no sólo un lugar para vivir sino un verdadero hogar: el Hogar de Cristo.

A través de la contribución de benefactores y con la activa colaboración de laicos comprometidos, el Padre Hurtado abrió una primera casa de acogida para niños, luego una para mujeres y otra para hombres. Los pobres comenzaron a tener en el Hogar de Cristo un ambiente de familia en el cual vivir. Estas casas se fueron multiplicando y adquiriendo nuevas formas y características: en algunos casos se convirtieron en centros de rehabilitación, en otros, de educación artesanal y muchos otros. Todo se inspiraba en los valores cristianos, que empapaban la obra entera.

En 1945, el P. Hurtado viajó a Estados Unidos, y estudió cómo adaptar al país el movimiento «Boys Town». Los últimos años de su vida los dedicó al desarrollo de las varias formas en las que el Hogar de Cristo había llegado a existir y operar.

En 1947 fundó la Asociación Sindical Chilena (ASICH), con el objetivo de promover un sindicalismo inspirado en la Doctrina Social de la Iglesia.

Entre el 1947 y 1950 escribió tres importantes libros: Sindicalismo, Humanismo Social y El Orden Social Cristiano en los Documentos de la Jerarquía Católica. En 1951 fundó la Revista Mensaje, conocida revista de los jesuitas chilenos dedicada a dar a conocer y explicar la doctrina de la Iglesia.

Un cáncer al páncreas terminó con su vida en pocos meses. En medio de los grandes dolores solía repetir: «Contento, Señor, contento».

Después de haber pasado su existencia manifestando el amor de Cristo a los pobres, fue llamado por Él el 18 de agosto de 1952.

Desde su regreso a Chile vivió solamente poco más de quince años: fue un tiempo de intenso apostolado, expresión profunda de su amor personal por Cristo y, precisamente por eso, caracterizado por una gran dedicación a los niños pobres y abandonados, por un celo ardiente por la formación de los laicos, y por un vivo sentido de justicia social cristiana.

El Padre Hurtado fue beatificado por Juan Pablo II el 16 de octubre de 1994.

Texto copiado do portal do Vaticano

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Published in: on 29/09/2009 at 15:09  Deixe um comentário  
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